Para os grandes
Estados da periferia a formação de blocos econômicos e políticos é um dos
fenômenos mais importantes do cenário internacional. O Brasil participa do
Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e das negociações de formação da Área de Livre
Comércio das Américas (ALCA), estando ambos os processos envoltos em véus de
ilusão, retórica e insensibilidade política.
A ALCA faz parte de uma operação estratégica
americana de amplo alcance, com objetivos políticos, econômicos e militares de
longo prazo, cuja implementação se inicia com a Cúpula de Miami - Reunião dos
Presidentes das Democracias do Hemisfério, em dezembro de 1994 - com a
significativa exclusão de Cuba, em uma primeira vitória dessa operação.
Os principais objetivos
políticos do que se poderia chamar de “estratégia de Miami” seriam, do ângulo
externo, consolidar a influência norte-americana sobre os maiores Estados da
região, garantindo seu apoio em disputas dos EUA com outras potências, tais
como a Rússia, a União Européia e a China; com Estados “renegados”, como o
Iraque, a Líbia e a Síria; e para suas estratégias específicas de combate às
“novas ameaças”, como o narcotráfico, o terrorismo e as migrações Sul-Norte e
Leste-Oeste.
Do ângulo interno, seu objetivo
seria consolidar vínculos de dependência jurídica. Tais vínculos impediriam
modificações súbitas de política econômica e a adoção de políticas
disciplinadoras dos fluxos de bens e de capital e promoveriam a adaptação da
legislação e das instituições aos modelos norte-americanos, para facilitar a
atuação das mega-empresas multinacionais americanas. A promoção das regras de good governance e da democracia formal,
com a reeleição de dirigentes simpáticos a essa estratégia, contribuiria para
alcançar este objetivo.
Do ângulo militar, essa
estratégia visa a colocar sob “protetorado” militar americano os Estados da
América Latina, por meio de acordos que dificultem ou impossibilitem o
desenvolvimento de tecnologias avançadas, que são muitas vezes pela sua
natureza duais (com uso militar e civil), que reduzam seus armamentos
convencionais e, por último, que confiem às suas Forças Armadas apenas o papel
de guardiães da ordem interna, transformando-as em forças policiais.
Na área econômica, os principais
instrumentos da “estratégia de Miami” são a pressão pela adoção de políticas
neoliberais de reorganização econômica, que “reduzam” (e enfraqueçam) os
Estados e desregulamentem as economias e, finalmente, pela cristalização
jurídica da abertura comercial e financeira, por meio de um tratado de criação
de uma área de livre comércio das Américas, a ALCA.
O objetivo econômico norte-americano é
estabelecer um território econômico único nas Américas, com livre circulação de
bens, serviços e capitais, porém sem livre circulação da mão-de-obra, em
especial aquela de menor qualificação, e, gradualmente, fazer adotar o dólar
como moeda hemisférica, cuja emissão e circulação ficariam sob exclusivo
controle norte-americano, ao contrário do euro, em que o controle da moeda é
exercido de forma coletiva, pelos Estados da União Européia.
Alguns
dos objetivos intermediários ou parciais na execução da estratégia americana e
que poderiam ser visados gradualmente, seriam:
a)consagrar a abertura externa feita pelos Estados
latino-americanos, aprofundá-la e torná-la definitiva ao comprometer os Estados
com acordos parciais, setoriais e eventualmente gerais de liberalização;
b)abrir setores ainda relativamente fechados das
economias latino-americanas;
c)melhorar a competitividade comercial dos bens e
serviços americanos nos mercados sul-americanos diante das empresas européias e
em especial das brasileiras;
d)evitar o “retrocesso” em direção ao
protecionismo e à estatização, que ocorre periodicamente quando das crises de
pagamento das economias maiores como a brasileira;
e)obter concessões, antecipando o que seria
objeto de negociação comercial na futura Rodada do Milênio da OMC, e nas
negociações sobre capitais do acordo multilateral de investimentos, ora em
elaboração na OCDE;
f)promover, aproveitando as crises de pagamentos,
a vinculação entre o dólar e cada moeda nacional tornando assim todos os
sistemas monetários latino-americanos "dolarizados", como já ocorre
com a Argentina.
O Brasil é o único país, devido às suas
dimensões e ao seu potencial, que pode competir política e economicamente com
os Estados Unidos na América do Sul. Assim, é preciso encarar a ALCA como um
projeto essencialmente entre o Brasil e os EUA, tendo em vista os parques
industriais muito limitados dos demais países, com exceção do México e da
Argentina; e os vínculos políticos e jurídicos existentes entre os EUA e a
América Central e entre os EUA e diversos países sul-americanos, altamente
dependentes do mercado e dos investimentos americanos, como é o caso da
Venezuela e da Colômbia. O México e o Canadá participam do North American Free
Trade Association (NAFTA) e portanto se encontram entrelaçados com a economia
norte-americana. Por outro lado, a eliminação de tarifas aduaneiras e a criação
de um território único entre o Brasil e os pequenos e mesmo os países médios da
América Latina não acarretaria maiores conseqüências para os empresários e
trabalhadores brasileiros. A notória assimetria em termos de diversificação
industrial, de serviços e de competitividade, como os balanços comerciais
bilaterais revelam, e
o próprio fato de que já existe
um território único com a segunda principal economia de região, a Argentina,
indicam que os impactos não seriam negativos ou extraordinários. A questão que
se coloca para o Brasil de um território único nas Américas se refere não aos
demais países subdesenvolvidos de região, mas sim ao que ocorreria com a
economia, a sociedade e o Estado brasileiros como resultado da criação de uma
área de livre comércio com a principal potência econômica, política,
tecnológica e militar do mundo, que são os Estados Unidos.
A ALCA se denominaria assim mais
apropriadamente Área de Livre Comércio Brasil - Estados Unidos (ALCBREU) e a
partir deste ângulo é que deveria ser analisada pelos estrategistas brasileiros
quanto a suas conseqüências econômicas e políticas para o Brasil, e para o
MERCOSUL.
A ALCA e o comércio no
MERCOSUL
As preferências tarifárias, e
não a maior competitividade de suas empresas, explicam a extraordinária
expansão do comércio entre os países do MERCOSUL, desde 1991.
A principal vantagem econômica
de curto e médio prazo do MERCOSUL para cada um dos quatro Estados membros é o
acesso preferencial, sem pagamento de direitos aduaneiros e livre de barreiras
não-tarifárias, ao mercado dos outros três países, o que lhe permite melhor
concorrer com as empresas exportadoras, mais poderosas em termos financeiros,
organizacionais e tecnológicos, dos países mais desenvolvidos, em especial os
Estados Unidos.
Na medida em que, devido à ALCA,
as empresas americanas e canadenses passem a desfrutar do mesmo tratamento de
tarifa zero nos mercados do MERCOSUL deverão se reduzir as exportações do
Brasil e da Argentina intra-MERCOSUL e os produtores brasileiros e argentinos,
hoje protegidos da maior capacidade competitiva daquelas empresas pela Tarifa
Externa Comum (TEC), sofrerão uma renovada e forte competição direta em seus
próprios mercados nacionais. Assim, os atuais superávites americanos com os
países do Mercosul se ampliariam, inclusive devido ao fato de que sendo a
tarifa média americana mais baixa do que o nível médio da TEC, a redução a zero
de ambas certamente ocasionaria um aumento mais do que proporcional das
exportações americanas (e canadenses) para o Mercosul, não importa o que ocorresse
com as barreiras não-tarifárias.
Nos outros países sul-americanos
que, além dos Estados Unidos, constituem os principais mercados para as
exportações de manufaturados brasileiros (setor dinâmico de nossa pauta, único
que pode se expandir de forma consistente a longo prazo) passarão os produtos
dos países do MERCOSUL, e aí principalmente os brasileiros, a sofrer a
competição americana e canadense, pois desapareceriam as preferências a eles
hoje concedidas pelos acordos de alcance parcial da Associação Latino-Americana
de Integração (ALADI).
O ganho para as exportações
brasileiras, em decorrência da redução a zero das tarifas norte-americanas e
mesmo da derrubada das barreiras não-tarifárias não seria significativo, tendo
em vista a menor competitividade dos manufaturados brasileiros diante da
produção local americana, européia e asiática no mercado interno dos Estados
Unidos e dos produtos agrícolas brasileiros diante da maior eficiência da
agricultura americana.
Assim, do ponto de vista do
comércio exterior, a ALCA significaria um provável aumento do déficit com os
Estados Unidos e uma redução das exportações brasileiras para a América do Sul,
com o resultado final de um aumento do déficit global da balança comercial
brasileira.
A ALCA e a formação de
capital
Um dos principais estímulos ao
investimento direto estrangeiro em qualquer região do mundo tem sido a
“vantagem” que deriva de saltar as barreiras que protegem os mercados nacionais
e assim, dentro deles, produzir o que antes não se podia, ou era difícil,
exportar, inclusive gozando agora de maior estabilidade de regras. Haverá uma
tendência à redução da formação de capital industrial no Brasil e na Argentina
(únicos países com estrutura industrial avançada na região) devido à redução do
estímulo aos investimentos diretos americanos que hoje se fazem para aproveitar
a "preferência MERCOSUL”, isto é, a tarifa zero entre os quatro mercados,
consolidada juridicamente, “defendida” pela TEC, e que inclusive pode vir a se
alterar para cima em certas circunstâncias, dificultando as exportações.
Aos menores investimentos
diretos americanos corresponderão menores investimentos diretos de países
europeus e asiáticos no MERCOSUL. Os investidores dessas regiões preferirão se
instalar no maior mercado da ALCA, os Estados Unidos, ou se instalar no México,
de mão-de-obra mais barata que a americana ou canadense e vizinho da
Califórnia, da América Central e do norte da América do Sul, para de lá
exportar para os demais países da região. O Brasil, cujo sudeste é hoje o
centro econômico dinâmico do MERCOSUL, se tornará “excêntrico”, distante e mais
caro em relação ao território da ALCA considerado como um todo e perderá assim
um dos principais estímulos de que hoje se beneficia para atrair capitais.
A partir da assinatura da ALCA,
as empresas americanas instaladas no Brasil poderão importar insumos dos
Estados Unidos com tarifa zero e reduzir as suas compras de fornecedores
locais, brasileiros ou estrangeiros, o que afetará por um lado a produção e a
balança comercial brasileira e, por outro lado, colocará as empresas americanas
no Brasil em melhor posição competitiva em relação às empresas européias e
asiáticas, instaladas no Brasil ou que exportam para o Brasil. Tais empresas,
por sua vez, reivindicarão a negociação de acordos semelhantes de eliminação de
tarifas entre o MERCOSUL e a União Européia e, eventualmente, entre o MERCOSUL
e o Japão e outros países asiáticos.
A ALCA e o mercado de
mão-de-obra
Uma das formas de compensar o
desequilíbrio de vantagens na constituição de uma área de livre comércio de
amplo escopo como viria a ser a ALCA, em que os países com excedente de capital
e de bens se beneficiam da integração comercial e financeira, seria a
possibilidade dos países, com escassez de capital e de bens, porém com
excedente de mão-de-obra não-qualificada, poderem “exportá-la” e se beneficiar
de suas remessas, como ocorreu no passado com os países europeus em relação à
América do Norte e aos domínios brancos do Commonwealth. Esta hipótese não
parece ter maior possibilidade de vir a ocorrer no caso da ALCA, pois os
Estados latino-americanos que deveriam estar interessados em apresentar
esquemas de livre circulação de mão-de-obra não os apresentam como ponto de
negociação enquanto as restrições políticas e legais americanas à imigração são
notórias. Assim, a criação de uma verdadeira zona econômica, como está se
verificando progressivamente na Europa, não se verificaria no caso da ALCA.
Assim como o NAFTA consagrou as
restrições à circulação de mão-de-obra na América do Norte, tudo indica que a
política de imigração norte-americana em especial quanto a mão-de-obra
não-qualificada permanecerá e que a ALCA não incluiria a possibilidade de livre
movimentação de mão-de-obra no continente. Naturalmente, a mão-de-obra altamente
qualificada continuará sendo benvinda ao mercado americano e seu ingresso e
“enraizamento” na sociedade americana continuará a ser facilitado.
Os processos de “recrutamento”
de mão-de-obra qualificada e promissora permanecerão através de um sistema integrado
que inclui a difusão da língua inglesa e da cultura americana; o intercâmbio
unidirecional de estudantes e professores; a concessão de bolsas de
pós-graduação; a atração de executivos altamente qualificados para a direção de
empresas multinacionais nos Estados Unidos e o incentivo a bolsistas altamente
promissores para lá permanecerem e se integrarem ao sistema de ensino ou de
produção.
Assim, os Estados da América
Latina tenderão a permanecer como “depósitos” de mão-de-obra não-qualificada e
barata e como geradores eventuais de pessoal altamente qualificado (uma
situação semelhante ao fenômeno da biodiversidade) cujos custos de formação
inicial financiariam, e que “fertilizaria” o mercado de trabalho
norte-americano devido à sua criatividade e ao talento científico daqueles que
se destacaram.
Respostas do MERCOSUL à ALCA
Este cenário e as conseqüências
acima descritas não se materializariam integralmente no curto prazo, mas são
tendências inexoráveis no médio e longo prazo na medida em que não há indícios
de natureza econômica, social ou política que permitam prever que as empresas
brasileiras poderão se tornar competitivas em relação às americanas de tal
forma que pudessem, no médio ou longo prazo, se beneficiar da ampliação do
território que resultaria da ALCA.
Governos, acadêmicos e
empresários têm sugerido que seria conveniente, necessário ou até
imprescindível, antes de negociar de fato o ingresso do Brasil na ALCA,
fortalecer o MERCOSUL através da expansão de seus vínculos econômicos internos;
da construção de políticas macroeconômicas e setoriais comuns; ou de sua
ampliação geográfica, pela criação de uma Área de Livre Comércio da América do
Sul – a ALCSA.
A expansão do comércio do
MERCOSUL
A acelerada redução de barreiras
entre os quatro países e deles em relação ao resto do mundo, em cumprimento do
calendário do Tratado de Assunção (1991), fez crescer as importações entre os
quatro países de 5,3 para 20,1 bilhões de dólares e suas importações do resto
do mundo de 29 para 80 bilhões de dólares, no período entre 1991 e 1997. Por
outro lado, as exportações entre os quatro países cresceram de 5,1 para 19,7
bilhões de dólares e suas exportações para o resto do mundo de 41 para 62
bilhões de dólares.
O superávit global de 12 bilhões
de dólares em 1991, que os países do MERCOSUL tinham em seu comércio com
terceiros países, se reduziu rapidamente e passaram a ocorrer déficits
crescentes a partir de 1994 que atingiram, em conjunto, 18 bilhões de dólares
em 1997.
A capacidade desses países de
competir no mercado mundial não tem aumentado na medida em que suas
exportações, para países fora do Mercosul, passaram de 41 bilhões de dólares em
1991 para 62 bilhões de dólares em 1997, enquanto as exportações mundiais
(exclusive as exportações intra-Mercosul) passaram de 3,4 trilhões de dólares
para 5,2 trilhões no mesmo período. A participação de suas exportações para
terceiros países (extra-Mercosul) no total das exportações mundiais passou
assim de 1,20% para 1,17%.
Brasil e Argentina, que são os
principais países do MERCOSUL, têm voltado gradualmente à condição de
exportadores primários, com tudo o que isso significa de deterioração de termos
de intercâmbio, de flutuações bruscas de preços, de aumento de concorrência de
novas áreas de produção, de dificuldade de acesso aos mercados desenvolvidos e
de lento crescimento da demanda. Por outro lado, contrariando as expectativas
nutridas pela Rodada Uruguai, a liberalização dos mercados agrícolas ou não
ocorreu ou não teve as conseqüências esperadas e o Brasil se tornou, não um
grande exportador de produtos agrícolas, mas sim um dos maiores importadores
mundiais de produtos agrícolas e agro-industriais.
A vulnerabilidade dos países do
MERCOSUL a choques externos parece estar aumentando devido à lenta expansão de
suas exportações, à redução gradual do seu valor agregado, ao aumento acelerado
e indiscriminado de importações e à elevada dependência dos dois países
menores, e agora também da Argentina, do mercado brasileiro.
Os déficits no comércio de bens
e em outros itens do balanço de transações correntes, que foram também
desregulamentados e abertos, tais como transportes, viagens, tecnologia e
remessas financeiras, vêm sendo financiados pelo ingresso de capitais de curto
prazo, pela venda de ativos do Estado, por investimentos diretos e por
empréstimos.
As estratégias de financiamento
do setor externo e de atração de capital por meio de altas taxas de juros e de
câmbio “fixo” fizeram com que a dívida externa do MERCOSUL passasse de 188
bilhões, em 1991, para 303 bilhões de dólares, em 1997. A crise latente do
balanço de pagamentos, em especial do brasileiro, foi assim se formando antes
das crises na Ásia ou na Rússia e deriva da crescente desconfiança dos
capitalistas internacionais em nossa capacidade de saldar compromissos, da
corrida para realizar lucros e, no caso dos capitalistas brasileiros, da
preocupação em preservar o valor de seus ativos denominados em reais.
A crise cambial latente no
principal país do MERCOSUL tem natureza “estrutural” e não apenas conjuntural,
que pudesse ser remediada rapidamente por uma mudança de política cambial. A
mega-operação de salvamento, conduzida pelo FMI, bancos internacionais e
governos credores, em 1998, se de um lado revela a dimensão da crise de outro
será ineficaz para dissolvê-la. As próprias políticas que são condições para
concretizar essa operação, ao estimular a desnacionalização de empresas e a
abertura ao capital estrangeiro de setores de “non tradeables”, como o bancário
e infra-estrutura, contribuem para agravar os mecanismos que geram
inexoravelmente crescentes saídas de divisas.
A estratégia de desvalorização
cambial ou a adoção de uma política de câmbio flutuante, ainda que pudesse
auxiliar no enfrentamento dos desequilíbrios externos, seria insuficiente. Do
lado da importação, diversos setores incorporaram em seus processos produtivos
insumos importados, às vezes com o desaparecimento das indústrias locais que
antes os fabricavam, e a privatização, a desnacionalização de empresas e de
“cadeias produtivas” tornaram essas importações “estruturais". A
desvalorização cambial impulsionaria os preços dos produtos industriais
importados e da produção doméstica que com ela compete e efeitos semelhantes se
verificariam na área agrícola e de abastecimento, ainda que nessas áreas a
recuperação da produção doméstica pudesse ser mais rápida.
Quanto à exportação, de um lado
as estruturas dos mercados internacionais caracterizadas pelo comércio
intrafirmas, pela estratégia das empresas multinacionais de divisão de mercados
e pelas dificuldades de acesso aos mercados dos países desenvolvidos, devido ao
neoprotecionismo, agravado pelo desemprego naqueles mercados, e de outro lado,
as dificuldades para financiar exportações, subsidiá-las ou “promovê-las”,
limitariam em muito a possibilidade de expansão rápida das exportações. De toda
forma, a dimensão do superávit comercial que teria de ser alcançado a curto
prazo, a continuidade provável de uma política de elevadas taxas de juros e o
desestímulo conseqüente aos investimentos produtivos e não-especulativos
indicam que a desvalorização teria um efeito menor do que o esperado por seus
defensores, ainda que acompanhada por uma brutal e profunda recessão. Ademais,
o impacto da desvalorização sobre a parte “dolarizada” da dívida pública
interna e as dívidas das empresas privadas brasileiras em dólar são elementos
dissuasivos da adoção de uma política de desvalorização cambial rápida.
É necessário lembrar que certos
itens do balanço brasileiro de transações correntes são naturalmente
deficitários, no curto e médio prazo, pelo menos. Os investimentos diretos
brasileiros no exterior são muito menores do que os investimentos estrangeiros
no Brasil assim como são diminutos os financiamentos concedidos pelo Brasil a
terceiros países e portanto, as receitas de lucros e de juros tendem a ser
muitíssimo inferiores às despesas. As receitas de fretes dificilmente podem
crescer pela situação precária da marinha mercante e da indústria naval. O
balanço da conta de tecnologia tende a ser deficitário pela reduzida geração de
patentes e pelo descontrole atual sobre os contratos de tecnologia. O Brasil,
finalmente, é um pólo emissor de turistas e sua infra-estrutura turística,
apesar de progressos recentes, ainda não é capaz de reverter a tendência de
déficit na conta de viagens internacionais.
Os déficits nesses itens de
transações correntes tendem a permanecer e até a se ampliar em condições
normais e sua redução dependeria de controles e restrições administrativas.
Assim, qualquer redução significativa do desequilíbrio no balanço de transações
correntes como um todo somente pode ocorrer, ainda que com as dificuldades
apontadas, por meio da geração de superávites na balança comercial.
Assim, a probabilidade de virem
a ser necessários controles rígidos sobre as transações comerciais, cambiais e
outras transações correntes é cada vez mais elevada, em especial no Brasil,
país que é o centro do MERCOSUL e cuja situação econômica e política tem
impacto decisivo sobre a economia dos três outros Estados. Entre outras medidas,
isso poderá fazer com venha a ser indispensável a elevação da Tarifa Externa
Comum, o que acarretará resistências e fortes protestos da Argentina, Paraguai
e Uruguai e dos países extra-MERCOSUL como os Estados Unidos, que hoje têm
grandes superávites com o MERCOSUL e com o Brasil e que seriam afetados pelo
aumento de tarifas em uma conjuntura internacional estagnada e marcada por
um resistente desemprego.
O “aprofundamento” do
MERCOSUL
A estratégia de “aprofundamento”
do MERCOSUL - isto é de promover a transição de uma união aduaneira para uma
comunidade econômica através da adoção de políticas comuns setoriais
(indústria, agricultura, previdência, trabalho, comércio exterior) e
macroeconômicas (fiscal, monetária, cambial) para enfrentar os desafios da ALCA
e a ela sobreviver se defronta com a questão das assimetrias.
As assimetrias entre os quatro
países do MERCOSUL são extraordinárias e constituem a dificuldade maior, ao
lado da vulnerabilidade externa, para a coordenação conjuntural de políticas
macroeconômicas, para a elaboração de políticas setoriais comuns e para a
construção de instituições supranacionais.
O Brasil corresponde a 72% do
território; a 79% da população; a 69% do PIB; a 64% do comércio exterior; a 48%
do comércio intra-bloco e a 62% da dívida externa do MERCOSUL. Por outro lado,
o Brasil apresenta péssimos índices sociais nas áreas de educação, saúde,
habitação, concentração de renda, expectativa de vida, mortalidade infantil
etc. Paraguai e Uruguai, somados, correspondem a 5% do território; a 4% da
população; a 3% do produto; a 5% do comercio exterior; a 10% do comércio
intra-bloco e a 2% da dívida externa dos Estados do MERCOSUL.
As diferenças de características, de
problemas, de disparidades regionais e sociais e de potencial indicam que as
políticas econômicas e sociais adequadas e aplicáveis ao principal país do
MERCOSUL – o Brasil – tem de incorporar estratégias e instrumentos
essencialmente distintos daqueles que seriam recomendáveis aos demais Estados
membros. Ademais, as diferenças periódicas de “momento” (expansão ou retração)
no ciclo econômico, de etapa de desenvolvimento, de potencial e perspectivas
dos países do MERCOSUL na esfera internacional dificultam até mesmo o exercício
de imaginar como seriam definidas e implementadas políticas comuns.
Tais eventuais políticas comuns teriam de
ser elaboradas e geridas por instituições comuns, supranacionais, integradas
por representantes, políticos e técnicos, indicados pelos Estados-membros, ou
por mecanismos intergovernamentais.
Na medida em que necessitam receber parcelas
de soberania dos Estados membros, as instituições supranacionais, para serem
democráticas, isto é, representativas e legítimas, devem, em sua composição,
“corresponder” razoavelmente às populações dos países – dimensão política – e à
importância e complexidade produtiva das suas sociedades – dimensão econômica.
As assimetrias no MERCOSUL ocorrem em tal
escala que a definição da proporção da participação de cada país nessas
instituições se torna quase impossível, pois o Brasil, em qualquer aspecto,
corresponde a mais de 50% do conjunto dos Estados-membros, sendo que as
assimetrias entre o Brasil e os dois Estados menores são extraordinárias. Se ao
Brasil correspondesse menos do que a metade do número de integrantes de qualquer
organismo supranacional (Comissão, Parlamento, Tribunal) a população e a
economia brasileiras estariam radicalmente subrepresentadas. Por outro lado, se
mais da metade dos membros fosse de brasileiros, a opinião destes sempre
prevaleceria na tomada de decisões e, portanto, a instituição não seria
democrática, pois os demais países estariam em uma situação de minoria
sistemática.
Entre as políticas comuns está a monetária,
a partir da criação de uma moeda comum, o que vem sendo apresentado recentemente
como solução para “aprofundar” o MERCOSUL por alguns acadêmicos, altos
funcionários e recentemente pelo próprio governo argentino. A própria
organização de um Banco Central do MERCOSUL encontraria aqueles obstáculos,
sendo impossível aceitar a ilusão de que seus dirigentes, após serem
designados, se tornariam “neutros” e “imparciais”, perdendo a sua nacionalidade
e visão do mundo.
A definição e gestão, por mecanismos
intergovernamentais, de políticas comuns aos quatro Estados do MERCOSUL, ainda
que não esbarrasse na questão das assimetrias e da representatividade, seria
uma operação de grande complexidade e que exigiria, acima de tudo e de início,
uma visão razoavelmente compatível e uma política comum dos dois principais
Estados diante dos desafios internacionais que tem de enfrentar, no processo
assimétrico e altamente tumultuado da globalização, o que hoje, 1999, está
longe de ocorrer.
Mesmo que a definição e execução de
políticas comuns fosse possível, elas poderiam ser insuficientes para
fortalecer, em tempo hábil e na escala necessária, o capital brasileiro ou o
capital estrangeiro no Brasil frente à nova concorrência, sem limites e sem
defesas, gerada pela área continental de livre comércio.
Por outro lado, as iniciativas pontuais dos
países do MERCOSUL, como o reconhecimento de diplomas escolares, a criação de
passaporte comum e outras, ainda que louváveis, não têm maior impacto sobre o
cerne do desafio político e econômico, para o Brasil e o MERCOSUL, que coloca a
estratégia americana de formação da ALCA.
A ampliação do MERCOSUL
Outra estratégia que vem sendo apresentada
para enfrentar o desafio da ALCA seria de, ampliando o MERCOSUL, aumentar a
capacidade de negociação com os EUA e o Canadá e tornar esta negociação mais
equilibrada.
A “ampliação” do MERCOSUL, incorporando, por
adesão ou associação, outros países, está vinculada à questão da Associação
Latino-Americana de Integração (ALADI) o que torna necessário apresentar um
rápido histórico daquele organismo e daquele que o antecedeu, a Associação
Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC).
A frustração brasileira pela ausência de um
“Plano Marshall para a América Latina” após a Segunda Guerra Mundial; a
proposta da Operação Pan-Americana; o Tratado de Roma e o tratamento
preferencial concedido aos Estados africanos; os estudos da Comissão Econômica
para a América Latina (CEPAL) sobre industrialização, comércio e ampliação dos
mercados nacionais pela integração, levaram, em 1960, à criação da ALALC, com a
participação dos países da América do Sul e do México.
Em 1969, no seio da ALALC, surgiu o Pacto
Andino, uma associação entre Chile, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela e
Colômbia, com objetivos de planejamento econômico e políticas comuns nas áreas
industrial e de investimentos. Seus resultados foram inicialmente modestos
devido à pequena dimensão dos mercados, ao baixo nível de acumulação de capital
e às rivalidades e divergências entre os seus membros – que levou, por exemplo,
à saída do Chile.
Após um período inicial de remoção negociada
de barreiras tarifárias, a ALALC não cumpriu seu ambicioso cronograma de doze
anos para formação da zona de livre comércio e sofreu, a partir de 1973, os
efeitos das crises do petróleo que levaram a súbitas e drásticas dificuldades
de balanço comercial e à renovação de barreiras tarifárias e não-tarifárias
entre os países membros.
Em 1980, a ALALC foi substituída pela ALADI,
uma organização muito mais flexível, que permitiu manter os tratamentos
preferenciais concedidos pela ALALC e expandi-los por meio de acordos bilaterais
ou plurilaterais de preferências, com a aprovação tácita do General Agreement
on Tariffs and Trade (GATT).
A ALADI não deve ser subestimada, pois o
tratado que a constitui é o instrumento legal que permite aos Estados-membros
conceder tratamento preferencial entre si, sem ter de obedecer ao artigo XXIV
do GATT (hoje Organização Mundial do Comércio), e a suas exigências de prazo e
de volume de comércio que os acordos bilaterais da ALADI estão longe de
atender. A ALADI constitui assim, na prática, uma rede de acordos preferenciais
entre os Estados membros, de alcance muito variado quanto ao número de produtos
beneficiados e às preferências concedidas.
Em 1986, tendo em vista as limitações da
ALADI, Brasil e Argentina decidiram iniciar um programa de integração e
cooperação econômica bilateral que, além da formação gradual de uma zona de
livre comércio e eventualmente de uma união aduaneira, previa a elaboração de
políticas comuns e programas de cooperação em áreas de alta tecnologia tais
como a nuclear, a aeronáutica, a informática e a biotecnologia. Esse programa
tinha também objetivos políticos pois, ao contribuir para remover a histórica
desconfiança entre os dois países e sua competição por influência econômica e
política na América do Sul, em especial no Cone Sul, lhes permitiria uma
atuação conjunta mais eficiente no cenário político internacional, nas
organizações multilaterais e em suas relações bilaterais com as grandes
potências.
Graças à aplicação dos princípios de
gradualismo, flexibilidade, realismo e equilíbrio de vantagens, o Programa teve
êxito na remoção negociada de obstáculos e na criação de um espírito de
cooperação entre as administrações econômicas, políticas e militares dos dois
países.
Em 1988, antes da eleição presidencial argentina,
decidiram os dois governos celebrar um Tratado de Integração que, ao ser ratificado pelos Congressos dos
dois países, conferisse maior legitimidade aos princípios, consolidasse os
resultados do Programa e engajasse os Legislativos no processo de integração,
tornando-o menos burocrático e mais democrático.
Com a eleição e a posse dos presidentes
Carlos Saul Menem (1989) e Fernando Collor de Mello (1990), as políticas
econômicas dos dois países sofreram radical transformação, tendo sido adotadas
nos dois países filosofia e políticas econômicas neoliberais que tinham como
princípio central a abertura unilateral do setor externo e, em especial, do
comércio.Assim, em 1991, com o Tratado de Assunção, as autoridades dos dois
países decidiram aceitar a participação do Uruguai e do Paraguai e transformar
o programa bilateral, com seus mecanismos graduais e adaptados às
peculiaridades dos diferentes setores e momentos, em um esquema automático e
acelerado de redução e eliminação de tarifas, com a formação de uma tarifa
externa comum, como instrumento auxiliar do processo geral de redução de
tarifas, em que já estavam empenhadas.
O MERCOSUL constituiu-se assim em um
instrumento de lock in (de
“trancamento”), a níveis baixos, da política geral de redução de tarifas e
barreiras não-tarifárias, de características multilaterais, ao consagrar tal
política em um tratado internacional regional, em que três dos quatro
participantes tendem a favorecer uma política de tarifas aduaneiras baixas.
A leitura do Tratado de Assunção revela que
seus objetivos são prioritariamente comerciais, de liberalização e abertura de
mercados, sem pretensão efetiva à coordenação de políticas macroeconômicas e à
formulação de políticas comuns, mencionando apenas sua conveniência, sem
estabelecer compromissos ou indicar mecanismos para atingir tais fins.
A formação do MERCOSUL colocou em questão os
chamados acordos de alcance parcial (AAPs), que haviam sido celebrados
anteriormente entre cada país do MERCOSUL e os demais membros da ALADI.
Esses acordos “perfuravam” a Tarifa Externa
Comum de forma desigual. A título de exemplo, nos AAPs entre os países do
MERCOSUL e a Venezuela, o tratamento tarifário concedido pela Venezuela para um
mesmo produto era desigual em relação a cada país do MERCOSUL e vice-versa,
assim como era desigual o elenco de produtos incluídos em cada AAP bilateral.
A ampliação geográfica do MERCOSUL tem
significado principalmente um processo da regularização do “patrimônio
histórico” de concessões tarifárias, através de sua “multilateralização”.
O acordo com o Chile – que é um acordo de
associação, pois o Chile não se tornou membro do MERCOSUL – veio a ter um
caráter distinto, devido à importância dos fluxos de comércio desse país com os
países do MERCOSUL, às questões políticas entre Chile, Argentina e Brasil e ao
interesse de vincular o Chile ao MERCOSUL frente à sua intenção, demonstrada em certo momento,
de se associar ao NAFTA.
A Bolívia, apesar de fazer parte do Pacto
Andino, hoje Comunidade Andina e de ter tarifa em comum com os demais membros
da Comunidade, celebrou isoladamente um acordo de associação com o MERCOSUL. A
reduzida importância comercial da Bolívia como mercado, sua elevada dependência
comercial em relação ao MERCOSUL (isto é, ao Brasil e à Argentina) e seu incipiente
parque industrial tornaram esse acordo um exercício de harmonização dos níveis
tarifários dos acordos bilaterais anteriores entre aquele país e os Estados do
MERCOSUL.
As negociações com a Venezuela e demais
membros da Comunidade Andina tem encontrado sérios obstáculos enquanto que a
decisão argentina, em 1998, de renovar unilateralmente seu acordo bilateral com
o México causa profunda preocupação, ao romper a frente de negociação do
MERCOSUL com os parceiros da ALADI.
Conclusões
Assim, além das crises internas que absorvem
atenções e esforços, de um lado a estratégia de “aprofundamento” do MERCOSUL
esbarra na ideologia neoliberal, livre-cambista e multilateralista das
autoridades econômicas argentinas e brasileiras e nas assimetrias entre os Estados,
as quais dificultam a elaboração de políticas comuns através de mecanismos
intergovernamentais ou de instituições supranacionais enquanto que a estratégia
de ampliação geográfica não tem significado a inclusão de novos Estados no
MERCOSUL, mas, principalmente, a regularização das diferenças de tratamento
tarifário entre os países do MERCOSUL e os demais membros da ALADI, sem que
tenham ocorrido significativas diferenças pela inclusão de grande número de
novos produtos.
Por outro lado, caso a ALCA venha a se
materializar, a zona de livre comércio do MERCOSUL se ampliará de quatro para
trinta e quatro parceiros, restando apenas a Tarifa Externa Comum (TEC) que
sofrerá forte pressão para “desaparecer” em decorrência da eventual negociação
de um acordo de livre comércio entre a União Européia e o MERCOSUL. Assim, caso
se implantem a ALCA e uma zona de livre comércio com a União Européia, o
MERCOSUL terá desaparecido de forma definitiva como instrumento de política
comercial preferencial e como embrião de união econômica.
A ALCA trará como conseqüência global o
agravamento do desequilíbrio comercial entre Brasil e Estados Unidos e do
desequilíbrio global do comércio exterior brasileiro. Como a parte financeira é
tratada de forma estanque pelos países credores, o desequilíbrio do balanço de
contas correntes se agravará, principalmente caso persistam as políticas de
câmbio “fixo” e de altas taxas de juros para atrair capitais de curto prazo,
com as conseqüências sobre a acumulação de capital, o nível de produção e o
emprego.
Por outro lado, a criação de um território
econômico comum faria com que as decisões tomadas em Washington no campo da
política monetária e fiscal tivessem um impacto maior do que tem hoje sobre a
atividade econômica em toda a área, sem que a população brasileira estivesse
sequer representada nesse processo decisório. Naturalmente, que se a atual
“âncora cambial” for transformada em “currency board” i. e. for estabelecida
legalmente a paridade entre o dólar e o real, desaparecerá a possibilidade de
política monetária autônoma.
O Brasil se tornará o maior e mais inerme
Estado periférico pois ainda que seus governantes superem as amarras
ideológicas que os tolhem e recuperem a capacidade de ação política autônoma, o
Brasil enfrentaria enormes dificuldades pois veria reduzida drasticamente, com
a ALCA e o acordo com a União Européia, a possibilidade legal de utilizar os
mecanismos de política industrial, tecnológica e comercial para acelerar a
acumulação interna de capital, necessária ao aumento da produtividade, da
produção e da renda de sua população crescente.
Os desequilíbrios sociais e
econômicos internos se agravarão sem que o Estado tenha os recursos, a visão
ideológica, a vontade política e a possibilidade legal de intervir de forma
enérgica (e não paliativa) no processo social, econômico e tecnológico,
enquanto que a vulnerabilidade externa se agravará pelo descompasso entre os
setores comercial e financeiro do balanço de pagamentos.
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O destino do Mercosul:
Mercado Comum ou Zona de Livre
Comércio?
Firmando-se como
um dos blocos econômicos mais promissores no cenário internacional, o Mercosul
completou, em 1º.1.97, dois anos de união aduaneira. Seu crescente êxito pode
ser visto pelo interesse dos demais países da América Latina em querer fazer
parte desse Clube. Originariamente composto pelo Paraguai, Uruguai, Brasil e
Argentina, somam-se ao bloco o Chile, cujo ingresso se deu em 1º.10.96, e mais
recentemente a Bolívia, em 1º.1.97, ressalvando-se que esses dois países não
participam da união aduaneira, mas tão-somente assinaram um acordo de
associação de livre comércio com os quatro países fundadores.
As etapas a que
se propôs o Mercosul a cumprir vêm sendo alcançadas. A primeira delas teve
início com a assinatura do Tratado de Assunção em 26.3.91, pelo qual se criou
uma zona de livre comércio entre os quatro sócios. A segunda - união aduaneira
- teve início em 1º.1.95, e, embora ainda imperfeita, e com todos os percalços
inerentes à formação desse modelo de integração tão complexo, tem conseguido
avançar - tanto é que o Mercosul é a terceira união aduaneira do mundo (a
primeira, o Zollverein, como se diz
em alemão [zoll: aduana - verein: união}, ocorrida no Século XIX,
uniu as aduanas dos Estados alemães; e a segunda, a União Européia, que nasceu
a partir do Tratado de Roma, em 1957, criou a Comunidade Econômica Européia,
consolidando a sua união aduaneira em 1968) e o terceiro e último estágio
previsto no Tratado que instituiu esse bloco regional é o mercado comum, e vem
daí o significado Mercosul - Mercado Comum do Sul; porém, este é um projeto
mais ousado, e só experimentado pela União Européia - único modelo de mercado
comum no mundo -, que, para além da união econômica, pressupõe uma união
política e social, com a inclusão das quatro liberdades que lhe são inerentes:
livre circulação de bens, pessoas, serviços e capitais, permanecendo, assim,
como um objetivo a ser atingido a longo prazo.
Pelo fato de esse
bloco pretender ir além de uma mera zona de livre comércio, e já estar dentro
de uma união aduaneira, que pressupõe uma tarifa externa comum e uma política
comercial comum, a cessão de soberania por parte dos Estados membros é
sensivelmente maior que uma mera zona de livre comércio. Destarte, os Estados
que, por livre e espontânea vontade resolverem aderir a esse ousado projeto,
não podem agir unilateralmente em determinadas matérias, pois agora passam a
ser parceiros, fazem parte de um jogo, com regras que devem ser cumpridas e
respeitadas por todos.
Mas, se até
termos conseguido avançar muito na conformação de uma união aduaneira, não
podemos esquecer que a meta do Tratado de Assunção é a formação de um mercado
comum. Então, para que tenhamos êxito nessa caminhada, temos que olhar o
exemplo da União Européia, que admitiu de maneira programada e lenta o ingresso
dos países neste bloco regional, iniciando com seis, em 1957, e hoje tendo
quinze sócios. Ressalte-se, por oportuno, a grande preocupação das Comunidades
Européias que admitem países pobres como Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda e
injetam verbas a fundo perdido para que eles possam chegar ao nível dos países
ricos, estipulando um prazo para tanto, que no caso concreto dos quatro países
será até 1999. Findo este prazo estes países, já não mais considerados pobres,
passam, junto com os demais, a ajudar os que aguardam o ingresso nesse seleto
clube, tais como Malta, Chipre, Hungria, República Tcheca, entre outros.
De se destacar
que os quinze sócios da União Européia gozam das vantagens mas em contrapartida
também aceitam o ônus que um projeto desse porte implica, ou seja, os Estados
têm a obrigação de respeitar a ordem jurídica comunitária em sua totalidade,
invocando a figura do "acquis
communautaire", ou seja, quando adere à Comunidade, o Estado adere a
uma ordem jurídica completa e complexa, que passa a integrá-la a partir do
momento de sua adesão.
Esse é um dos
problemas pontuais vividos no seio do Mercosul, com constantes instabilidades e
divergências geradas pelo descumprimento de normas estabelecidas, pois, ainda
que este bloco não seja dotado de supranacionalidade há que se respeitar as
regras acordadas pelos quatro sócios. O Brasil é o país que com mais freqüência
muda as regras do jogo, trazendo conflitos desnecessários e incompreensíveis
para quem se dispõe a fazer parte de um bloco econômico. Uma série de medidas
provisórias editadas pelo governo brasileiro colidem com as normas previstas no
Tratado de Assunção em 1995, o governo brasileiro impôs o sistema de cotas para
a importação de automóveis, gerando um conflito comercial, não só com países do
Mercosul, como com a União Européia, o Japão e os Estados Unidos, que até hoje
não foi solucionado. Ainda na questão automotiva, editou recentemente a Medida
Provisória n.º 1532, que cria uma espécie de regime automotivo paralelo e privilegiado
para o Norte, Nordeste e o Centro-Oeste brasileiro, concedendo incentivos
fiscais às montadoras estrangeiras de veículos, trazendo novamente uma certa
perplexidade aos demais sócios do Mercosul.
No início do ano,
mais um embate foi criado pelo Brasil, com a publicação, em 14.1.97, da
Portaria n.º 9, da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde,
que altera as regras de controle sanitário dos alimentos que entram no país,
passando-se a exigir um mecanismo de controle complexo e burocrático, que vai
desde cadastros e comprovantes de recolhimento de impostos até a tradução na
embalagem, para o português, feitas por tradutores juramentados, assinados por
técnicos habilitados e visados pelo consulado brasileiro no país de origem.
O mais recente
atrito foi causado pela Medida Provisória n.º 1569 que tem por finalidade
limitar as importações e estabilizar o déficit
na balança comercial, obrigando aos importadores que antes pagavam as
aquisições de acordo com o prazo conseguido com o vendedor no exterior, passem
a pagá-las à vista.
Portanto, por
várias vezes nosso país altera, sem a menor cerimônia, através de medida
internas, normas internacionais e os conflitos comerciais por elas criadas
desafiam o bom andamento do Mercosul. Parece que, por não ter nosso país uma
vocação internacionalista, freqüentemente descumpre acordos internacionais, e o
faz sabedor de suas atitudes, tanto é que depois de provocar duras crises entre
os sócios, sempre volta atrás, como foi o caso do setor automotivo, onde excluiu
os países do Mercosul, o caso dos têxteis, onde o Uruguai se insurgiu com
veemência e o Brasil recuou, o caso dos alimentos, e agora o prazo de
financiamento para importações. Talvez por se considerar o país de maior
importância, pois sem o Brasil esse bloco seria incipiente, haja vista que dos
atuais 220 milhões que fazem parte desde bloco, 150 deles pertencem ao Brasil,
ele se ache no direito de infringir normas, sem o mínimo respeito aos seus
vizinhos, sem o mínimo respeito aos compromissos assumidos, sem o mínimo
respeito ao Direito Internacional.
Se ao menos nossa
atual Carta Magna definisse a questão da hierarquia das normas no ordenamento
jurídico interno, o que grande parte das Constituições modernas já fazem, e,
diga-se de passagem, a maioria consagrando a prevalência dos Tratados
internacionais frente às normas internas, ter-se-ia ao menos uma maneira de
estancar esses constantes desrespeitos. Porém, a aprovação de uma lei ordinária
posterior pode invalidar um acordo internacional em vigor, o que pode pôr em
risco a seriedade do Brasil em relação ao cenário internacional conforme
adverte o Professor Jorge FONTOURA, da UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA:
"É
fundamental que os Estados que se propõem a conviver em espaços jurídicos
comunitários definam-se claramente com relação à questão da força vinculante
dos tratados vis-à-vis ao ordenamento jurídico interno, com a criação de uma
convicção político-jurídica sem a qual nenhum processo de integração pode
edificar-se. Não é de se esperar, a propósito, que investidores e demais
operadores econômicos se interessem por um mercado onde não se saiba, com
razoável segurança jurídica, quais sejam as leis aplicáveis e quais suas
efetividades em relação a hipotéticos conflitos de interesses."
A fim de evitar
novos conflitos, Argentina e Brasil propõem a criação de um subgrupo de
coordenação macroeconômica no âmbito do Mercosul, estabelecendo um fórum
permanente para que os países possam trocar idéias com os demais parceiros,
expondo e explicando os motivos que os levam a tomar medidas a primeira vista
contrárias ao bloco. A partir dessa consulta prévia, evitam-se atritos entre os
parceiros que não mais serão colhidos de surpresa e através do diálogo e do
consenso se alcançarão soluções para os problemas apresentados e se evitará o
desgaste político, tão prejudicial em qualquer tentativa de união entre países.
Por outro prisma,
o Mercosul esta crescendo com rapidez, admitindo, como associados Chile e
Bolívia - bem como assinando acordos com a União Européia e agora a proposta de
se criar a ALCA, com intenção de formar uma zona de livre comércio com estes
dois blocos regionais.
Então devemos nos
perguntar que estrada devemos seguir: a da integração ou a da ampliação?
Cremos que seria
mais prudente seguir o caminho da integração para permitir concluir com êxito a
ampliação, para não corrermos o risco de não estruturarmos as bases para um
projeto sólido, como ressaltou, recentemente, o Secretário-geral da ALADI,
Antonio J. C. ANTUNES:
"...é
importante o princípio de gradualidade no processo de liberalização, de modo a
permitir que os países disponham de tempo suficiente para fazer as
transformações setoriais de competitividade e reciclagem necessárias para
evitar prejuízos significativos na produção nacional... Longe de contradizer a
integração hemisférica, a articulação e a convergência entre acordos bilaterais
e sub-regionais dos países da América Latina, além de serem direitos
imprescindíveis para propiciar o desenvolvimento econômico, social e
democrático, são a forma mais viável e construtiva para a participação desses
países nos processos hemisféricos e mundial."
O Mercosul se
identifica quanto aos objetivos a serem perseguidos, com a União Européia,
fomenta o livre comércio, a integração até um mercado comum, a democracia - com
a recente inclusão da cláusula democrática e de direitos humanos como
fundamento das relações entre os sócios, e dos projetos de união política,
cultural e social, superando, assim, o nível puramente econômico. Portanto, os
sinais são suficientemente claros para afirmar que a união aduaneira não é
senão uma etapa de um processo de integração mais profunda.
Os objetivos do
Tratado de Assunção seguem vigentes: a conformação de um Mercado Comum do Sul,
como bem destacou recentemente o Presidente da República da Argentina, Carlos
MENEM: "O Mercosul potencializa
nossas possibilidades como atores internacionais, mas, temos que acelerar o
aprofundamento da ‘identidade Mercosul’ para evitar que a globalização aja como
um ‘diluidor’ ao invés de um incentivo para novas possibilidades de negócios
entre as nações."
Na esteira do
pensamento do Presidente da Argentina o nosso Ministro das Relações Exteriores,
Luiz Felipe LAMPREIA também se posiciona: "o Mercosul quer preservar sua identidade, porque é muito mais do que
uma união aduaneira. O Brasil e seus três sócios querem criar um mercado comum,
com livre trânsito de bens, serviços e pessoas."
Esse novo bloco
platino, em pouco tempo, tem-se revelado um ator de grande importância no
cenário internacional, tanto é assim que, para além de atrair seus vizinhos sul
americanos para o bloco (Bolívia, Chile, Venezuela e os demais países do Pacto
Andino), chama a atenção das grandes potências - Nafta e União Européia -
passam a disputar a preferência comercial em nosso mercado.
Os Estados Unidos
da América aceleram sua intenção de pressionar o bloco mercosulista para a
conformação da ALCA - Associação de Livre Comércio Americano -, cujo início
está previstos para 2005, e tem por finalidade unir 34 países da América numa
zona de livre comércio. Dos mais polêmicos este assunto que causou uma certa
instabilidade entre o Mercosul e a ALCA, onde o Brasil e os EUA disputam a
hegemonia do bloco hemisférico, e onde, aparentemente, pelo desconforto causado
pelo Congresso Americano em não conceder ao Presidente dos Estados Unidos
autorização para que ele possa assinar acordos regionais - fast-track, tem colocado o Mercosul em posição vantajosa, tanto é
assim que nosso Presidente da República, Fernando Henrique CARDOSO, em recente
pronunciamento, foi taxativo: "Em
certos momentos, é preciso colocar as coisas como são. E nós não temos porque
estar de cabeça baixa, temerosos de não estarmos cumprindo a agenda tal ou
qual. A agenda é nossa. Nós é que somos os senhores do tempo, no que diz respeito
aos interesses do Brasil. E vamos utilizar esse tempo com propriedade, não com
velocidade."
A União Européia,
por outro lado, já assinou, em 1995, um acordo de livre comércio com o
Mercosul, pretendendo, assim, afastar a América Latina da área de influência do
NAFTA.
Cremos que antes
de darmos passos ousados seja com a União Européia, seja com a ALCA, temos que
estar estruturados no projeto do nosso mercado comum, entre os quatro amigos,
ou quiçá, já com algum dos novos associados somados a esse ambicioso projeto,
para não vermos o sonho de termos um mercado comum diluído numa integração
hemisférica, como bem alerta o Presidente da República da Argentina, Carlos
Saúl MENEM, neste citado.
É importante
olhar para os exemplos que já tivemos num passado recente: a Associação
Latino-Americana de Livre Comércio - ALALC e sua sucessora Associação
Latino-Americana de Integração - ALADI, que produziram uma exuberante retórica
muito aquém dos avanços concretos obtidos, e hoje, é a própria ALADI, que
pretendia, antes, uma integração multilateral, a fomentadora de acordos
regionais entre os países que dela fazem parte, sendo através dela que se deu o
nascimento do Mercosul, quando da assinatura de um tratado bilateral entre
Brasil e Argentina - Tratado de Integração e Cooperação Econômica - em 1986, de
onde surgiu a semente de uma união que germinou e transformou-se nesse novo e
próspero Mercado Comum do Sul.
A integração que
pretendemos não é somente a baseada no comércio, ou seja, nas formas primitivas
de integração (zona de livre comércio ou união aduaneira), pretendemos ter
relações mais amplas na América Latina, com a intenção de trazer, inclusive, os
países associados para que venham a somar o projeto de mercado comum. É
necessário, então, não nos desviarmos de nosso caminho, olharmos em frente e ao
longe, para, com calma e perseverança alcançarmos nossa meta. A integração
hemisférica somente terá êxito, para nós da América do Sul, com um bloco que já
esteja forte, em contrário seria uma maneira de abandonar a parte mais humana
deste projeto que é dar uma condição de vida melhor a todos que fazem parte
desse bloco, e, se por um lado a integração física já é complexa e representa
um grande desafio, mais o será uma integração de pessoas; porém, é a
movimentação humana que gera a união de mercados, e por acreditar na opção
escolhida pelos quatro amigos e constatar como a própria história nos mostra o
caminho para se ter êxito num projeto tão ousado que é um mercado comum, é
preciso que não sejamos vulneráveis e diante dos pedidos de noivado ou
casamento que nos são propostos não aceitemos um casamento que apenas visa o
interesse, vamos preservar antes de mais uma união verdadeira solidificada no
amor, na parceria, na amizade e na solidariedade.
Um dos pais da
criação do Mercosul, o então Presidente do Brasil José SARNEY, disse lamentar
que: "o projeto original que
concebeu com o Presidente da Argentina, na altura RAÚL AFONSIN, tenha sido
parcialmente abandonado: Nós sonhávamos com alguma coisa parecida com o Mercado
Comum Europeu, com suas instituições multilaterais ... Mas parece que se
conformaram em fazer disso somente uma zona de livre comércio."
Não deixemos que o
sonho que nasceu com BOLÍVAR e se concretizou com os pais do Mercosul se acabe!

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